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Estética e identidade: quando o cirurgião plástico é o psicólogo com o bisturi na mão

Reconhecemos nossa identidade a partir da percepção que fazemos de nós mesmos. Para Freud, o pai da psicanálise, a formação do Ego (nosso “princípio de realidade”) é inicialmente corporal. Isso significa que a maneira como percebemos nossa própria imagem exterior, nosso corpo, tem um profundo efeito na psique e na personalidade, por consequência.

Diversas pesquisas de campos científicos como a Psicologia, a Antropologia e a própria Medicina reforçam as implicações que a ideia de beleza, e seus efeitos na representação de si, causam no comportamento e nas relações dos indivíduos. Nesse contexto, a cirurgia plástica e os procedimentos estéticos apresentam-se para muitos como solução para as dificuldades sociais, relacionadas diretamente à autoestima do sujeito.

Um exemplo é a pesquisa “O impacto da cirurgia plástica na autoestima”, publicada na revista científica “Estudos e Pesquisas em Psicologia” pelas pesquisadoras Sabrina Borges Ferraz e Fernanda Barcellos Serralta em 2007. As psicólogas empregam a entrevista em profundidade como método para compreender a relação da cirurgia plástica estética com o funcionamento psíquico. Os resultados da investigação indicam, de maneira geral, “que a cirurgia plástica aumentou a autoestima e a harmonia interna das entrevistadas, sanou a sua deformidade física (real ou imaginária) e alterou positivamente suas relações interpessoais e sexuais”. A pesquisa pontua ainda a capacidade de garantir ao indivíduo um lugar na sociedade por meio do acesso ao procedimento estético.

O Brasil é a terceira maior potência no mercado da beleza no mundo. Quando o Instituto Lapidare foi inaugurado, com uma palestra do Dr. André Braz, especialista em anatomia da face e médico dermatologista renomado, o entrevistamos sobre o mercado da beleza no Brasil para o blog do nosso centro de treinamento médico. Na época, Braz falou sobre como a cosmiatria made in Brazil é bem vista no mundo, por conta da alta procura dos brasileiros e da quantidade de procedimentos que realizados todos os anos.

“Nosso povo é muito vaidoso, assim como os latinos. O Brasil criou uma cultura da busca pelo que é belo e com resultados mais naturais. O professor Ivo Pitanguy, considerado o maior cirurgião plástico do mundo, contribuiu muito para o nosso reconhecimento já que foi pioneiro em várias questões. A medicina cosmética, como um todo, mantém o legado deixado por ele. Outro ponto que reflete no Brasil como uma potência no mercado da beleza é a miscigenação do povo. Temos todos os tipos de rostos, de etnias”, explicou.

A variedade de formas, cores e proporções presentes nos rostos e corpos brasileiros – e, por consequência, a variedade com que nossa cultura compreende o que é belo – reforça o entendimento que a estética é subjetiva. Nossa percepção de beleza é mutável, influenciada por valores culturais e psicológicos.

É por isso que a relação com o procedimento estético varia de cada indivíduo, que busca pelo seu próprio ideal de resultados. Ao médico que realiza esses procedimentos ciente das suas implicações psicológicas, cabe desenvolver um grau profundo de empatia que permita entender o que aquele ser humano entende como belo, que imagem busca para si. Esse entendimento, aliado ao domínio das técnicas da cosmiatria, inclusive saber lidar com as eventuais complicações, vai permitir uma parceria com benefícios muito além da transformação estética na vida do paciente.

Um campo de estudos em ascensão tem se debruçado sobre essas questões. É a chamada Antropologia da Saúde. No livro “O psicólogo com o bisturi na mão: um estudo antropológico da cirurgia plástica”, a pesquisadora Daniela Feriani acompanha pacientes e médicos antes e depois de cirurgias plásticas realizadas em um hospital público de Campinas (SP). No texto, é possível perceber como a falta de autoestima pode se transformar numa espécie de “doença” que a plástica pode “curar”.

É possível perceber, ainda, a dificuldade que existe na tentativa de diferenciar o que seria um procedimento meramente estético de um procedimento reparador. Isso porque até mesmo um implante de silicone julgado como desnecessário pode ter grande efeito reparador, ao promover a saúde, o cuidado de si, o bem-estar emocional da paciente.

Quando uma pessoa não se identifica com a própria imagem, a maior afetada é a autoestima que, em baixa, pode desencadear problemas emocionais das mais variadas ordens. Isolamento, ansiedade, depressão, bulimia, anorexia, entre outros. Cada ser humano vai encontrar o caminho para seu próprio processo de cura, o que pode envolver terapia e acompanhamento psiquiátrico, mas também pode passar pela decisão de fazer o procedimento estético como forma de alinhar a imagem externa ao ideal interno de identificação. Foi Ivo Pitanguy quem afirmou: “o cirurgião plástico é o psicólogo com o bisturi na mão”.

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